Unidade conta com sala limpa, um ambiente submetido a padrões internacionais de controle; prioridade inicial será a pesquisa de terapia experimental para a anemia falciforme
O HSR (Hospital São Rafael), da Rede D’Or, inaugura em novembro uma Plataforma de Pesquisa e Desenvolvimento de Terapias Avançadas, laboratório dedicado à pesquisa e ao desenvolvimento de terapias celulares e gênicas experimentais. A iniciativa é apoiada pelo Instituto D’Or de Pesquisa e Ensino (IDOR) e conta com financiamento da Finep, empresa pública vinculada ao Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação.
O novo laboratório inclui uma sala limpa, que consiste em ambiente controlado, com ar ultrafiltrado, pressão e temperatura monitoradas, e acesso por vestiários e antecâmaras que permitem a manipulação asséptica de produtos de terapia avançada. O ambiente é projetado para atender às normas da Anvisa e a padrões internacionais.
A sala limpa tem 111 m² e quatro ambientes: três salas de cultivo celular e uma sala de apoio para processamento e preparo de soluções.
A prioridade inicial será a pesquisa de uma terapia experimental com edição gênica para a anemia falciforme, doença genética e hereditária que muda o formato das células vermelhas do sangue e tem grande prevalência na Bahia.
Outras linhas de pesquisa envolvem células CAR-T, uma forma de imunoterapia contra alguns tipos de câncer do sangue que utiliza as próprias células de defesa do paciente; e um estudo que tem como foco a abordagem da síndrome do desconforto respiratório agudo.
“O diferencial do novo laboratório é reunir, num hospital do Nordeste, a capacidade de desenvolver e fabricar para pesquisa clínica terapias hoje concentradas no exterior e em poucos centros do Sudeste”, afirma o médico, pesquisador, apoiado pelo IDOR e Ciência Pioneira e coordenador do laboratório, Bruno Solano.
Tesoura molecular
A tecnologia CRISPR é um dos destaques do novo laboratório. Trata-se de uma ferramenta que funciona como uma “tesoura molecular”, capaz de modificar com precisão um ponto específico do DNA, conforme explica o médico.
Na abordagem em estudo para a anemia falciforme, o objetivo é reativar a produção de hemoglobina fetal, o que pode atenuar seus efeitos. “No estudo clínico, células-tronco do sangue do próprio participante serão coletadas e editadas em laboratório. Depois, as células editadas serão devolvidas a ele”.
Solano enfatiza que o novo espaço coloca a Bahia na fronteira das terapias avançadas, ao permitir pesquisar aqui terapias que poderão no futuro beneficiar pacientes com doenças como a anemia falciforme.
“Também reduz a dependência de tecnologias importadas, de alto custo, forma mão de obra altamente especializada e fortalece o São Rafael e o IDOR como referência nacional em terapia celular e gênica”.
O espaço relaciona, entre as atividades principais, a fabricação de produtos de investigação de terapia celular e gênica para estudos clínicos, edição gênica de células-tronco do sangue, produção de células CAR-T, cultivo de células-tronco, criopreservação de células para transplante, processamento de tecidos e controle de qualidade.
O laboratório não oferece tratamentos experimentais nem é um serviço de atendimento direto ao público, conforme explica Solano.
“As terapias em desenvolvimento só podem ser aplicadas a participantes de estudos clínicos aprovados pelos comitês de ética e pela Anvisa, e não estão disponíveis fora desses estudos. O laboratório também apoia a assistência do Hospital São Rafael, como a criopreservação de células para transplante de medula óssea e CAR-T”.
Equipe
O laboratório possui uma equipe que soma dez profissionais, sendo sete deles doutores e dois mestres. São médicos, biólogos e biomédicos, com especialização na área. O projeto prevê a participação de pesquisadores e alunos de pós-graduação de institutos parceiros como o próprio IDOR e a Fiocruz Bahia.
O laboratório atua integrado às equipes de hematologia, transplante de medula óssea e coleta de células do São Rafael.
O projeto é uma evolução do Centro de Biotecnologia e Terapia Celular (CBTC), que atua há anos no Hospital São Rafael, com trabalhos na criopreservação de células para transplante de medula óssea e no suporte a terapias com células CAR-T já aprovadas, em parceria com a indústria farmacêutica.
O novo espaço conta com equipamentos de última geração, a exemplo do sistema automatizado de separação de células; sistema fechado de lavagem e formulação celular; biorreatores para cultivo celular; equipamentos de congelamento controlado e armazenamento criogênico; sistema de filtração para purificação de vesículas extracelulares; e cabines de segurança biológica.
SOBRE O CIÊNCIA PIONEIRA
É uma iniciativa independente de apoio à ciência de fronteira do Instituto D’Or de Pesquisa e Ensino. Sem fins lucrativos, o projeto vai investir mais de R$ 500 milhões em pesquisas de ponta durante dez anos. Fundada e financiada pela família Moll, controladora do Grupo D’Or, a iniciativa tem como foco o investimento em linhas de estudo promissoras e pouco exploradas na interface entre as ciências biomédicas e de saúde e as ciências exatas.
SOBRE O IDOR
O IDOR, Instituto D’Or de Pesquisa e Ensino, é uma instituição sem fins lucrativos dedicada à pesquisa científica, ao ensino e à formação em saúde. Fundado em 2010 por Jorge Moll Neto e Fernanda Tovar-Moll, reúne mais de 150 pesquisadores, para alcançar uma produção científica expressiva. São mais de 2.500 artigos científicos publicados, que geraram mais de 75 mil citações.
Seus pesquisadores estabeleceram colaborações para pesquisa em mais de 80 países, que resultaram em mais de 1.400 publicações em revistas de alto impacto. Além disso, o IDOR mantém programas de mestrado, doutorado, residência médica e estágio acadêmico, além da Faculdade IDOR de Ciências Médicas no Rio de Janeiro, com graduações em Enfermagem, Psicologia e Tecnologia em Radiologia – aguardando liberação final para lançar sua graduação em Medicina.



